Fim de uma
ilusão
O bar sempre oferece inspiração
para uma crônica, pois seus freqüentadores são personagens, na sua maioria,
interessantes – para o bem ou para o mal – e numa destas minhas rápidas
passagens por um bar, encontrei um assíduo freqüentador, com o qual troco idéias.
quase sempre um papo agradável e agradável não significa intelectualidade, pode
ser até bobagens, afinal, no bar é o que mais se encontra. como é no bar que
encontramos os chatos. Aqueles que bebem e entendem que nós temos de ser
tolerantes. Bem, se não queremos encontrar bêbado, o melhor seria ir para a
igreja, onde existem chatos mas não bêbados.
Voltemos ao que interessa, o papo
com o amigo do bar, Como de costume falou de suas coisas, de sua vida, às vezes
com alegria, outras com certa tristeza. Não raro diz que não tem muito mais o
que fazer por aqui e, com a mesma constância, fala de seus dotes culinários e
do amor pelo neto. Enfim, um ébrio, como ele costuma se denominar quando a
dosagem alcoólica se expande em seu organismo.
O amigo em questão também adora
cantar, canta relativamente bem e costuma brindar os amigos do traçado e da
cachaça com seus dotes de cantor. Nesta noite, inspirado resolveu cantar
algumas canções, indagando se eu as conhecia uma ou outra, e quando a resposta
era negativa ria de meu desconhecimento e isso lhe dava satisfação. Num
intervalo em que esperava meu comentário, um outro frequentador, começa a
entoar o início de
Matriz ou filial,
no que o amigo ébrio continuou e antes da última estrofe ouve-se elogio a
Lupicínio Rodrigues, da sua capacidade de criar belos versos. Entusiasmo
cortado, abruptamente, pela minha voz cavernosa dizendo que a canção não era de
Lupicínio e sim de Lúcio Cardim. Fui contestado, mas me mantive firme, pois
tinha a certeza do que estava afirmando. Lúcio e não Lupi o autor, uma certeza
que abalou o ébrio cantor e demonstrando profunda tristeza saiu para fumar.
Talvez uma fuga para não se irritar com minha sabedoria. Percebi o
constrangimento causado.
Tentei mudar o assunto, falando de
outras composições que, equivocadamente, se atribuem a outros que não os
verdadeiros autores, mas não adiantou. Em silêncio me ouviu, até que falou: “se
hoje fiquei mais sábio em matéria de música, estou triste de saber que o autor
de
Matriz ou filial não é Lupicínio”.
Quase lhe pedi desculpas por ter tirado esta ilusão, não o fiz . Me despedi, e
fui para a casa com a sensação de ter destruído uma grande ilusão com minha
pretensa sabedoria.
Jorge Nicoli
Darci. o
personagem desta crônica está internado, por isso resolvi colocar este texto em
sua homenagem.
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Chamomila
Parceira do
Sopa de Cebola